segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Tem que haver alma


Texto: De João Lucas, meu irmão, sobre um sonho que não sonhou e lhe foi dado.

É cedo para dizer da tarde noite. Passa-se por uma das avenidas mais movimentadas da cidade. Ônibus passam, carros (que têm o seu plural definido, talvez por pagarem mais à Gramática) passam, pedestres passam, e alguns param.

Param somente os pedestres, pois só eles vêem o que vem de cima. Tal como o Zepelim do poeta, paira sobre a cidade, por cima dessa mesma avenida, em hora que se faz cedo demais para dizer que é noite aquele final de tarde, uma máquina tal como um navio voador e um som: Há alma!

“Há alma, há alma, há alma!”, reproduz em tons graves a tal nave, e alguns mais afoitos gritam seus insignificantes (para quem?) aleluias. “Essas explosões devem servir para lembrar que nestas bolas de carne existe alma! Existe alma, existe alma, existe alma!”

“Em que língua fala?” perguntam-se uns. “É brasileiro, não ta ouvindo?” respondem outros, mesmo que, na verdade, estejam perguntando de volta, como que se a verdade do universo dependesse somente do acordo entre os transeuntes. Eu estava lá. Eu descia a ladeira que levava à avenida. Eu vi o espetáculo de cima.

Poucos prestaram atenção na palavra mais importante. Alma. E menos ainda na coisa mais importante. Explosões. Pois, dos dois, a última foi vista como se não tivesse sido anunciada. E, num segundo, a avenida, os ônibus, os carros, os pedestres parados, os pedestres andantes, o fim de tarde início de noite fruto de tantas amáveis divergências, transformaram-se em algo que queria poder explicar.

O céu ficou vermelho, o chão ficou preto, o ar ficou azul, minhas mãos ficaram com cheiro de jasmim recém-colhido, meu coração cresceu três vezes e meus olhos ficaram só saudade. Eu vi o ‘espetáculo’ de cima. O transporte que eu estava tentou freou, desequilibrou, virou,e parou como se estivesse deitado, descansando uma vida de boa postura. E eu saio.

“Há alma, nada faria sentido se não a houvesse”. Muito menos isso, pensei eu, e pensei rir. E vi-me imbecil, como nunca antes. Nada aqui levava ao riso. Mas nada aqui levava à cólera. Nada levava a nada, porque não existe alma, existe humano. O plano do ideal é um plano de desamorosos. Mas isso não podia mais ser o que eu pensava, ou não haveria mais nada para mim.

Eu, um sobrevivente dos minutos que ninguém chegara a ver, pensava na alma como única escapatória. Mas escapar do quê, meu Deus? Se não fosse uma nave roxa que acabaria com a existência aqui, seria o Senhor, estou certo? E se houvesse mesmo alma, o que o Senhor teria haver com isso? Ah, Deus, o Senhor é o menor dos meus problemas agora. Estou em cima de um ônibus virado vendo minha ilha explodir, e penso que é a minha alma (se houver) que vai me salvar.

Tem de haver alma, tem de haver alma, tende haver...

Escrever com a Borracha

Hoje comprei, borracha, caderno e todos os impedimentos para escrever foram esquecidos. Herança das primeiras almas que não perdoaram a parede lisa dos carvões e tinturas.A eles não foi estabelecido regras gramaticais, já à mim, elas são espinhos num caminhos já bastante difícil.

Meu trabalho, expressar-me, é mais fácil, comparado com o dos primeiros. Tudo parece já estar estabelecido. A humanidade talvez não dure os milhões de anos que nos afastam do primórdio, e duvido que os arqueólogos do futuro comecem pelo meu caderno.

Portanto escrevo sem a responsabilidade do porvir. Escrevo apenas por existir, e como consequência, possuir o desejo humaníssimo de escrever, escrever e escrever.

Mas tudo necessita de um intuito, e vou dedicar minhas linhas ao dispositivo ausente na Criação. A borracha.

Fica claro que a borracha deixaria vexado qualquer grande escritor. Nem o mais instintivo e talentosos dos muitos que da palavra fizeram ofício, sentiriam-se confortáveis com as inconfidências deste dispositivo.

Meros parenteses. Se avaliada a criatividade, o conceito da novidade é rotineiramente associado, alguma coisa como ser fácil pensar o já pensado, quando a criatividade em meu caso particular, rebenta da coragem. Voltemos à borracha.

Penso, ao vê-las, que no cinza de suas arestas perdidas, há conhecimento. Se pudessem, ao serem passadas em papel pautado, ai apenas os pautados, reescrever o que foi desimpresso, o ato de escrever teria a responsabilidade alterada tornando as borrachas usadas tesouros da vergonha, talvez "segredo", como o financeiro ou telefônico. Fiel depositária dos meus erros de ação ou raciocínio, cá ficarás, e de ti nada será revelado, talvez o que, realmente, importe.