sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Pouco Antes de Dormir

Vou hoje escrever sobre amanhã.

Comprometo-me em abençoar meus dias com o melhor dos meus dias.

Serei cada vez mais o que serei. Serei o que sou. E sou amanhã.

“Sou”, o verbo mal conjugado, na óbvia incapacidade de expressar o tempo verbal que desconheço a existência. Saibam todos que suspeito de tudo. De mim principalmente. Quando a hora chegar, estarei aqui. Quando todas as horas chegarem, estarei aqui. Escolhi levar a vida à seco.

Enfrentarei nos próximos dias uma terra que muito me fez sofrer. A terra que me mudou. Onde eu conheci o meu maior medo, o de ser sozinho. Na cama que dormir, no travesseiro que esqueci, na manta que não coube na volta, acordei várias vezes com frio. Percebo, nesse exato momento, que tudo ficou.

Fui marcado por aqueles dias. Fui ferido de morte por aqueles dias!

Amanhã vou acordar, faço isso todo dia com uma despreparo incongruente com a frequência. O dia será outro. A fórmula esta dada: “Cantar sempre que for possível, não ligar pros malvados, perdoar os pecados. Saber que nem tudo é perdido, se manter respeitado, pra poder ser amado.”

Por um amor que já fui objeto e sujeito, pelo amanhã sincero, pela felicidade que virá, eu durmo... Porque vou acordar!

Gripado ao mar

Por esses dias fui acometido de tristeza biológica, bem expressa pela gripe. Todos os sintomas de tristeza, justificados pela coriza.

Institui tratamento revolucionário, limpei a pele com sol, calor, risos, amigos e mar!

O mar, possuindo vantagem de tamanho, força, estado físico, experiência e persistência poderia afogar facilmente um gripado nadador, ou um nadador gripado, com queiram. Não afoguei-me por claro desprezo oceânico e um dom, o medo. Travestido de respeito com pitadas de prudência. Não afoguei-me por manter-me onde minhas forças poderiam me levar, e fundamental, trazer-me. Enfrentar o medo,o mar em sua força de existir em ondas, estas reais, concretamente impactantes é algo inquietante. Inquietude, se não desejável, fundamental. Fui para o mar lavar qualquer vírus desavisado, tristezas recentes, decepções recentes. As outras só seriam lavadas se levado eu fosse. E não estou disposto.

Sai do mar com uma certeza clara. Minhas certezas são a prova d’água e de sal.

Sinto-me esperançoso, portanto alegre.

Descobri uma forma infalível de massagear o ego. Enfrentar Golias, Davi tísico, empatar jactante.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

No Ambulatório

No ambulatório de cirurgia cardíaca, um paciente de uns 35 anos, apresentou-se e começou a consulta. o médico que eu acompanhava perguntou se conhecia o caso. Com a negativa nos apresentou e explico. Tinha recebido um coração por transplante a anos, de uma mulher assassinada.

Já havia conhecido pacientes transplantados, já vi um transplante, mas isso hoje foi diferente. Não foi pesaroso, não foi sublime. Foi a sessão de estarmos em 4 pessoas. Eu, o médico, o paciente e o coração de uma mulher.

O coração de uma mulher!!!!

Um coração de uma mulher!!!!

Batia por trás da pele, do seio, costelas. Sentia tanto medo, todas aquelas confusões de hormônios, todas aquelas frivolidades, pequenos desejos, paixões passadas, quem sabe ainda lembrava-se de um dia feliz, quem sabe tenha morrido sentido uma fisgadinha de amor por algum galã. Hoje esta desapropriado do peito, dos hormônios, das frivolidades, lindas frivolidades femininas, desapropriado do seio, desapropriado de galã. Bate agora no peito de homem, concordante finalmente com seu gênero gramatical.

O paciente honra o seu coração com os remédios regularmente, e com uma vida honesta e equilibrada. Mas lá dentro mora algo nunca bem compreendido por nenhum poeta. Alvo das maiores peripécias masculinas.

Deve hoje sentir amor, deve hoje bater por outras belezas, mas fiel a sua real vocação de mulher. De beleza em qualquer idade.

Aposto quanto queiram que nunca mas esse homem foi mesquinho. Não pelo milagre da vida nova ou coisa similar, mas por ser tão diferente de mulher. Não pode haver num peito que bate uma sede de alma emprestada. Amo estar e fazer o que faço. Estar a caminho de alguma coisa. E saiba, se eu morrer, faço questão que meu coração bata em algum lugar. Faço questão que bata. Faço questão. Que peça perdão.