No ambulatório de cirurgia cardíaca, um paciente de uns 35 anos, apresentou-se e começou a consulta. o médico que eu acompanhava perguntou se conhecia o caso. Com a negativa nos apresentou e explico. Tinha recebido um coração por transplante a anos, de uma mulher assassinada.
Já havia conhecido pacientes transplantados, já vi um transplante, mas isso hoje foi diferente. Não foi pesaroso, não foi sublime. Foi a sessão de estarmos em 4 pessoas. Eu, o médico, o paciente e o coração de uma mulher.
O coração de uma mulher!!!!
Um coração de uma mulher!!!!
Batia por trás da pele, do seio, costelas. Sentia tanto medo, todas aquelas confusões de hormônios, todas aquelas frivolidades, pequenos desejos, paixões passadas, quem sabe ainda lembrava-se de um dia feliz, quem sabe tenha morrido sentido uma fisgadinha de amor por algum galã. Hoje esta desapropriado do peito, dos hormônios, das frivolidades, lindas frivolidades femininas, desapropriado do seio, desapropriado de galã. Bate agora no peito de homem, concordante finalmente com seu gênero gramatical.
O paciente honra o seu coração com os remédios regularmente, e com uma vida honesta e equilibrada. Mas lá dentro mora algo nunca bem compreendido por nenhum poeta. Alvo das maiores peripécias masculinas.
Deve hoje sentir amor, deve hoje bater por outras belezas, mas fiel a sua real vocação de mulher. De beleza em qualquer idade.
Aposto quanto queiram que nunca mas esse homem foi mesquinho. Não pelo milagre da vida nova ou coisa similar, mas por ser tão diferente de mulher. Não pode haver num peito que bate uma sede de alma emprestada. Amo estar e fazer o que faço. Estar a caminho de alguma coisa. E saiba, se eu morrer, faço questão que meu coração bata em algum lugar. Faço questão que bata. Faço questão. Que peça perdão.
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ResponderExcluirBravo, Carlos! Bravo!
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