quinta-feira, 30 de junho de 2011

Pra ti

Meu coração vagabundo quer guardar o mundo em mim!

E depois disso, sentar e rir do teu lado, e voltar de longe por um caminho escuro;

Cada vez mais perto do claro não te poder.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Sobre o passado instantâneo que me foi dado


“Olhar no espelho é ver o passado!” Tudo é passado. Tudo já passou. Mas nem tudo vai passar.


Quarta dimensão física, definidora da impossibilidade da existência de dois corpos no mesmo lugar, o tempo me foi apresentado como passado. Se não vejamos, não sintamos. Nada é mais verdadeiro.


“Que não sou ninguém de ir, em conversa de esquecer, a tristeza de um amor que passou!” Mas já passou. Tudo já passou. Mesmo a pressão das teclas, respondida pelo estimo visual das letras é passado. Quando me beijaste passou. O beijo foi antes. Milésimos infinitesimais de tempo se passaram. Desconfigurando o teu beijo, desconfigurando o meu futuro, desconfigurando o tal catastrófico bater da asa da borboleta por cima de um mar qualquer. Mesmo o gerúndio é mentiroso.


Quando me aproximei, quando bateu indeciso pela ultima vez o coração, passei a mão na tua nuca. Senti mais magra do que presumia. Aproximei-me de ti. Lábios preparados, olhos abertos para a certeza do encontro preciso. Quando fechei os olhos já te beijava, bem antes do encontro dos lábios. Já te beijei antes de sentir. Quando o tato megalomaníaco dos lábios foi sentido, vários centímetros de neurônios já haviam sido percorridos pela tua saliva, e apontaram o retrato preciso do que aconteceu. O presente do teu beijo foi impreciso. O presente é o passado instantâneo. E no futuro te amava, só lá há presente, só nele buscava o teu presente. Como se o perturbado tempo, que me afasta da união atômica de mim e ti, debocha-se de nunca poder ser no presente do indicativo. Tu serás, eu serei. Eu fui, tu foste. O presente cabe ai. Depois daquilo nunca mais te desejarei, já tive. Quando bateu feliz o coração, o apogeu chegará atrasado de presenciar o amor presente.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Frio, Mulher e Poeta

E o frio se fez gente. Como gente, Frio. Pensem nele, figurem-no. Velho, triste, barbudo e torto. Acostumado a fazer dos ossos desespero, e dos músculos mais rígidos real massa vibrante, que nem a vontade mais tesa paralisa.

Mas não. Conheci hoje, num repouso de um hospital, coberto por roupas pouco confortáveis. Veio consulta-se em sonho, havia uma dúvida. Por segundos achei que tratava-se do Amor, e pra ele abri o peito cansado de esperar. Mas não era. Conheci-os gêmeos de mesma mãe Saudade. Jovial, realmente bonito, vestido como eu. Jaleco, barba rala, e uma vontade louca de ser Amor, pois saibam que as vontades nos vestem e travestem.

Viajou por vários recintos ultimamente. Tem fina afinidade por jovens belas, tem a capacidade de torná-las mais charmosas e as adora. Tem ódio dos poetas e não os deixa ser feliz. Faz sentir-se pleno ao menor espaço do calor, calor que não é gente, é condição. O Frio veio me perguntar sobre as Jovens belas e poetas.

—Como?

Não sei, são saberei, e faria de tudo por uma letra da resposta. O que falta para as jovens belas? Qual insatisfação, qual pudor, qual desconforto faz levar algo pleno, admirado por mim, pelo meu interlocutor e sei Irmão, honrar-se podre e triste como um poeta?

—Calma frio.

—Calma?! De tudo o que é pleno, de todas as coisas plenas, logo as mais bela se torna, por graça divina em poucos casos, o mais torpe das espécies, o cansado poeta?

—Calma Frio, senta do meu lado, transmite pra mim todo frio, mas poupa ao uma bela poeta.

—Não

E gritou com bafo estupidamente frio, desprezivelmente real. Foi sonho a fora, me deixou frio, e tenho a impressão que não perdoará nesta noite nenhuma mulher linda poeta.

—Volta. Não as assombre. Elas são lindas e isso é tudo. Tudo é beleza, e como eu deveria apenas Amar. Volta Frio, vol.. Bruuummm..

sexta-feira, 18 de março de 2011

Peço

Vem. Um desejo cercado por músculos me compele a te chamar. Meus braços de ossos de algodão pedem teu descanso. Já nem lembro quando, mas meus ossos não suportam. Nunca mais travesseiro.

Não venha. Do longo tempo de espera meu travesseiro, feito osso e braço por descaso teu, não suportaria outra magoa feita carne.

Vem. Porque não se vive até se lembrar, e já me esqueço, e já me esqueceste, e já não me importo ser esquecido.

Não venha. Partirás, ou partirei, e meu braço, mole por ti, confortável para teu desejo, já não será osso, não poderá trair tanto sua real vocação, e se desmantelará em macia saudade.

Venha, venha mesmo. Mas só peço que me minta nunca ir, e quando fores, porque a vida é real, não anuncie.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Infinitamente Próximo

E tudo tornado real no instante. Fim claro e palpável. Capitado por lentes biológicas, analisado por processador pulsátil, o fim deve existir além da capacidade animal de perceber.

Tudo terá fim logo, tudo o que começou acabará brevemente, e nem nisso há alívio. A dor em presumir o inevitável, a vivacidade sensorial da fábula contra a realidade magra e vesga.

Em verdade, vos pergunto: Quem de vós já sentiu de verdade. Quem de vós alegrou-se sem pudor? Quem de vós chorou sem nenhuma alegria?

Quem?

Em verdade, e em verdade vos digo. Ninguém.

Quando tudo estiver dependendo do infinitamente próximo, quando tudo depender não mais de tempo, mais de sucessão, onde inevitalmenteinexoravelmenteindubitavelmente tudo depender do próximo acontecimento, depender da piedade do Maestro da Orquestra, perceberão que

FIM

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Instantâneo "Delito de Paixão"

Parece bolero,

Te quero, te quero

Paro.

De um canto, limpador de vidro oferece seus serviços

Nossos versos são banais

Limpa

Limpa

No nosso retrato

Pareço tão linda

Te ligo ofegante

E digo confissões no gravador

Sinal verde

Buzina insensível ao pagamento em moedas

O vidro baixa

Mas como eu espero

Teus beijos nunca mais

-- Obrigado doutor, desculpa qualquer coisa

--Deus te abençoe

Teus beijos nunca mais

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Discurso nas Bodas

Agradeço a todos, saibam que a presença de vocês é deferência feita antes a mim. Mas mudemos de assunto.

Descendo de longa linhagem, assim como qualquer um. Viemos todos de um Adão, apaixonado por certa Eva, clichê, porque como disse um poeta, canções de amor se parecem porque não existe outro amor. Somos todos gerados por Amor, ao menos, pelo Amor. Comigo não foi diferente, mas especial.

Meu Adão foi criado por dois mundos. Conheceu ser amado cedo. Meu Adão quando ainda era Adãozinho, tinha medo de monstro embaixo da cama. Meu avô deitou-se com adãozinho debaixo da cama, e mostrou que debaixo de camas não existem monstros. Daí meu Adão cresceu. Descobriu, como poucos outros, que embaixo de camas não existem monstros. E sem medo deles lutou, e sem medos deles sofreu e sem medo deles vieram cicatrizes. Mas sem medo também venceu, sem medo conheceu minha Eva, que já entra na história, e me ganhou. E meu Irmão. E minha Irmãzinha.

Tenho consciência de ser presente, e na condição de, busco ter valor e superar expectativas. Ser presente é definitivamente difícil, mas apaixonante. E sou presente apaixonado.

Minha Eva é fruto de um Amor gigante. Os que conheceram, testemunharam esse Amor, o tem como o maior. Bem representado por uma breve história. Quando idosos, minha avô lavava a louça, meu avô trouxe o prato, que acabara de comer e disse:

- Faltou sal.

Minha avó ficou calada e, pouco depois falou:

-Então manda tua mãe fazer.

No tempo certo, meu avô responde, já longe:

-Manda a tua

Mas meu avô ouvia pouco, e já ia longe, e foi dito baixo, como poderia responder?

-Mas Dedi, tu não era surdo?

- E eu lá preciso ouvir para te conhecer?

Desconfio se alguém aqui conhece definição melhor, mais precisa de amor. Não é preciso ouvir para conhecer.

Desses dois grandes amores nasceram meus genitores, nada mais justo que por eles tenha amor incondicional.

Tenho comigo a lembrança do meu avô paterno como o velhinho que trouxe um monte de doce quando estava com hepatite, e que ouvia e pedia para repetir meus arranjos vocais no clássico sertanejo “pense em mim”. Ficava cantando no meio do fusca quando iam me buscar no colégio, e cantava para meu avô, me lembro disso. E me orgulho disso. “pense em mim, chore por mim, liga pra mim, não não liga pra ele”

Dá minha avô materna, que não conheci tenho a imagem do bom humor encarnado, e especialmente, feito Mulher.

Meu Adão é sério em coisas sérias. Tem sermões mais doídos que surras, e conhecimento muitas vezes confundido, por mim, com adivinhação, dado a precisão do acerto com base em fatos totalmente irrelevantes. Mas é bem humorado, e se reclama de ter de morrer como intransigente, com fama de brigão. Por isso saibam, ele não é brigam. Já mamãe...

Minha Eva é mulher. Linda. Um poço de compreensão pra mim. Ela quem abre a porta de madrugada quando volto dos plantões, e chora comigo a tragédia dos outros. Quem primeiro me recebeu nos braços no mundo, quem primeiro me abraçou no mundo, e provavelmente o melhor abraço que terei até o dia de morrer.

Só tenho a agradecer a esse Deus que me fez linhagem, descendente desse Amor, que me fez diferente do puxa-saco do Abeu, e graças, João Lucas diferente do fratricida do Caim.

Uma vez, de manhã cedo, quando meu avô paterno estava doente, meu pai me perguntou:

-Nainho, o que vou fazer quando papai Machado Morrer?

Não tinha, com 12 anos, a resposta. Mas tenho, hoje, com 23 anos.

-Papai, não sei, não sei como se pode abrir mão de ser tão amado.

Feliz bodas meus pais.

Vida longa, amo-lhes