quinta-feira, 26 de maio de 2011

Sobre o passado instantâneo que me foi dado


“Olhar no espelho é ver o passado!” Tudo é passado. Tudo já passou. Mas nem tudo vai passar.


Quarta dimensão física, definidora da impossibilidade da existência de dois corpos no mesmo lugar, o tempo me foi apresentado como passado. Se não vejamos, não sintamos. Nada é mais verdadeiro.


“Que não sou ninguém de ir, em conversa de esquecer, a tristeza de um amor que passou!” Mas já passou. Tudo já passou. Mesmo a pressão das teclas, respondida pelo estimo visual das letras é passado. Quando me beijaste passou. O beijo foi antes. Milésimos infinitesimais de tempo se passaram. Desconfigurando o teu beijo, desconfigurando o meu futuro, desconfigurando o tal catastrófico bater da asa da borboleta por cima de um mar qualquer. Mesmo o gerúndio é mentiroso.


Quando me aproximei, quando bateu indeciso pela ultima vez o coração, passei a mão na tua nuca. Senti mais magra do que presumia. Aproximei-me de ti. Lábios preparados, olhos abertos para a certeza do encontro preciso. Quando fechei os olhos já te beijava, bem antes do encontro dos lábios. Já te beijei antes de sentir. Quando o tato megalomaníaco dos lábios foi sentido, vários centímetros de neurônios já haviam sido percorridos pela tua saliva, e apontaram o retrato preciso do que aconteceu. O presente do teu beijo foi impreciso. O presente é o passado instantâneo. E no futuro te amava, só lá há presente, só nele buscava o teu presente. Como se o perturbado tempo, que me afasta da união atômica de mim e ti, debocha-se de nunca poder ser no presente do indicativo. Tu serás, eu serei. Eu fui, tu foste. O presente cabe ai. Depois daquilo nunca mais te desejarei, já tive. Quando bateu feliz o coração, o apogeu chegará atrasado de presenciar o amor presente.

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