terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Discurso nas Bodas

Agradeço a todos, saibam que a presença de vocês é deferência feita antes a mim. Mas mudemos de assunto.

Descendo de longa linhagem, assim como qualquer um. Viemos todos de um Adão, apaixonado por certa Eva, clichê, porque como disse um poeta, canções de amor se parecem porque não existe outro amor. Somos todos gerados por Amor, ao menos, pelo Amor. Comigo não foi diferente, mas especial.

Meu Adão foi criado por dois mundos. Conheceu ser amado cedo. Meu Adão quando ainda era Adãozinho, tinha medo de monstro embaixo da cama. Meu avô deitou-se com adãozinho debaixo da cama, e mostrou que debaixo de camas não existem monstros. Daí meu Adão cresceu. Descobriu, como poucos outros, que embaixo de camas não existem monstros. E sem medo deles lutou, e sem medos deles sofreu e sem medo deles vieram cicatrizes. Mas sem medo também venceu, sem medo conheceu minha Eva, que já entra na história, e me ganhou. E meu Irmão. E minha Irmãzinha.

Tenho consciência de ser presente, e na condição de, busco ter valor e superar expectativas. Ser presente é definitivamente difícil, mas apaixonante. E sou presente apaixonado.

Minha Eva é fruto de um Amor gigante. Os que conheceram, testemunharam esse Amor, o tem como o maior. Bem representado por uma breve história. Quando idosos, minha avô lavava a louça, meu avô trouxe o prato, que acabara de comer e disse:

- Faltou sal.

Minha avó ficou calada e, pouco depois falou:

-Então manda tua mãe fazer.

No tempo certo, meu avô responde, já longe:

-Manda a tua

Mas meu avô ouvia pouco, e já ia longe, e foi dito baixo, como poderia responder?

-Mas Dedi, tu não era surdo?

- E eu lá preciso ouvir para te conhecer?

Desconfio se alguém aqui conhece definição melhor, mais precisa de amor. Não é preciso ouvir para conhecer.

Desses dois grandes amores nasceram meus genitores, nada mais justo que por eles tenha amor incondicional.

Tenho comigo a lembrança do meu avô paterno como o velhinho que trouxe um monte de doce quando estava com hepatite, e que ouvia e pedia para repetir meus arranjos vocais no clássico sertanejo “pense em mim”. Ficava cantando no meio do fusca quando iam me buscar no colégio, e cantava para meu avô, me lembro disso. E me orgulho disso. “pense em mim, chore por mim, liga pra mim, não não liga pra ele”

Dá minha avô materna, que não conheci tenho a imagem do bom humor encarnado, e especialmente, feito Mulher.

Meu Adão é sério em coisas sérias. Tem sermões mais doídos que surras, e conhecimento muitas vezes confundido, por mim, com adivinhação, dado a precisão do acerto com base em fatos totalmente irrelevantes. Mas é bem humorado, e se reclama de ter de morrer como intransigente, com fama de brigão. Por isso saibam, ele não é brigam. Já mamãe...

Minha Eva é mulher. Linda. Um poço de compreensão pra mim. Ela quem abre a porta de madrugada quando volto dos plantões, e chora comigo a tragédia dos outros. Quem primeiro me recebeu nos braços no mundo, quem primeiro me abraçou no mundo, e provavelmente o melhor abraço que terei até o dia de morrer.

Só tenho a agradecer a esse Deus que me fez linhagem, descendente desse Amor, que me fez diferente do puxa-saco do Abeu, e graças, João Lucas diferente do fratricida do Caim.

Uma vez, de manhã cedo, quando meu avô paterno estava doente, meu pai me perguntou:

-Nainho, o que vou fazer quando papai Machado Morrer?

Não tinha, com 12 anos, a resposta. Mas tenho, hoje, com 23 anos.

-Papai, não sei, não sei como se pode abrir mão de ser tão amado.

Feliz bodas meus pais.

Vida longa, amo-lhes

Um comentário:

  1. Oi! Lembrei de vir comentar nesse post aqui, que me fez abrir um sorriso de orelha a orelha quando li, tão bonito que ficou. Abraços!

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