Pensei em guardar minha alma. Ela esta a muito comigo, e nunca tive este zelo.
Colocarei, divididamente, nos espaços que deixo de preencher em substância. Lugar que o mais concreto dos concretos, muito menos concreto que se supõe, deixa de preencher. Espaços teóricos entre partículas ínfimas. Ali minha alma repousaria, dividida em mim. Mas ela me sussurra que não se parte. Quer ser toda.
Penso, e ao pensar, penso que com a cabeça penso. E na cabeça vou colocar. Ficará refrescado pelos meus pensamentos, pelas imagens que me passam. Lá poderá ser inteira, vital comigo. Ficará acompanhada pelo melhor que há em mim. Mas a minha exigente alma ficará espremida, constantemente atrapalhada pelos meus tortos pensamentos, falsos julgamentos. Ela me diz que além de inteira quer ser feliz.
Fui então visitar meu coração. Órgão animado de beleza inconteste. Minha alma ali ficará animada pelos sobressaltos, sustos, emoções várias. Ficaria bem perto do meu calor, bem perto da bomba, que independe de mim pra ser. Talvez a única parte de mim com personalidade própria. Mas minha alma, exigente alma, quer além de felicidade, totalidade, quer ser calma. Meu coração com sobressaltos, batidas decididas e zoadentas, batidas às vezes sem rumo, às vezes com alvo claro, não lhe daria descanso. Precisa de calmo lugar para tomar fôlego de mim.
‒ Não sei mais alma, agora que me expus ao máximo, não encontras lugar calmo, feliz e grande o suficiente para ti. Talvez em mim não devas descansar, porque não sais de mim e descansa noutro lugar? Descansa além de mim cansada e chata alma!
E assim expulsa foi morar num lugar meu, impossibilitada de mim parti, mas que se comunica pra fora. Foi morar nos meus olhos. Lá tem calma, por ser órgão pouco afeito a desassossegos grandes. Lá ela é toda, porque migra à vontade entre eles, e descobriu que ser dois é meio mais sincero de ser um. Lá ela é feliz, porque descobriu que os olhos não são janelas, mas espelhos de almas que também expulsas, moram. Lá, nos outros olhos de exílio, moram almas que se refletem nos meus. Lá, onde minha alma esta agora a procura de se refletir em olhos preenchidos por uma alma que, reciprocamente, se reflita nos meus. Assim ficaram, as duas almas, por infinito tempo, a se refletir nos encontros do olhares. É das almas o narcisismo.
Nainho, não é o orgulho, nem a vaidade paternal que me fizeram gostar do texto. A ousadia de localizar a alma, sim, fez a diferença e a certeza de que se trata-de-um-bom-texto-ousado. Comodamente, a alma corresponde a todo o corpo. Almas e corpos se complementam na avaliação comum. No texto, achas o melhor lugar para o domicílio da alma. Nos olhos. Os olhos, também, manifestam o "semblante" de uma alma apaixonada. Os olhos, por sua vez, apaixonam-se e sugerem que a ALMA se entregue a toda e qualquer paixão. O poeta Goulart falou que a vida vale a pena, embora o pão seja caro e a alma pequena. Não creio na existência de almas pequenas, acredito que olhos não se abrem para as diversas perpesctivas de que os olhaares podem assumir. Belo texto. Parabéns.
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