quarta-feira, 13 de maio de 2015

Lua

Das muitas Vantagens da Lua Cheia, a noite é a maior.

Com o Sol improvisado no Breu, tudo reflete pouco e só é visto que o iluminado.  Diretamente.

Amores são mais amáveis, Belezas mais Belas, pelo fato de haver contorno. E a Vontade completa.

Clara e Enganadora, a Lua sabe que a Verdade do Sol é triste. Há Mentira na Lua. A de quase tudo vê, quase tudo perceber. Lá é o ninho do Amor e a caldeira da Paixão.
Por mais ridículo e clichê, sabe - se pouco sobre o Amor, mas o suficiente para escolher-lhe uma casa de praia, e para a a Paixão, a barraca

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Ser pó


E se cada pequeno fragmento de tudo, mesmo sendo pouco Tudo. Um indíviduo do todo, uma estrela em uma constelação, onde simultaneamente se é estrela e conjunto.
Cada um de nós é como uma constelação, uma coisa fixa no meio de toda essa bagunça, mas ao mesmo tempo tão maior e infinito e complexo... Cada qual com suas estrelas.
E cada estrela sendo um de nós.
E embaralhados num absurdo se ser.
Ser Si. De ser Só. De ser Sol. E de ter Dó.
E uma baita Dor.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Setenta vezes sete

Com a insistência dos vitoriosos, a Vida, essa transgressora e antiga máquina de moer, faz seu ofício. Moe e machuca sempre, com a criatividade de uma criança louca.
Não basta vestir as armaduras de Jorge. Sempre há um feicho mal posto, sempre há uma rachadura invisível, perceptível mesmo só por dentro, e a Máquina de Moer acerta lá.
Não no primeiro dia.
Não no primeiro golpe. Nem no segundo. Nem no terceiro. Nem no quarto.
Mas ela bate sempre
Sempre
.
.
Sempre
.
.
Sempre
.
.
Sempre
.
.
Sempre
.
.
Com a persistência de goteira que drena a água do Mar todo. Este Mar que é infinito, posto que é Água de Maldade. E a armadura que diante de tudo é tão singela.
"Mas grandes são os desertos e tudo é deserto." E "talvez a Vida seja não sonhar", mas, sem dúvida, é moer, e de nós restará o pó. Talvez disso Deus já soubesse.
Dialogar com Vida e se fazer tão pleno e intangível é tolo e cansado. Lutar e não desistir é ilusório. Desistir é conciliador e quente, ancho como colo.
Levantar 70 vezes 7. Isso dói.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Zelo


Por Zelo a este caderno, poupo-o de perder uma Folha e assim torna-lo menos. Escrevi algo realmente mal no princípio  e com rasura remediei.
Tenho feito muito disto, remediado com rasuras. É pouco inteligente, visto que por haver erro, o caderno sofreu, e com mais tinta nada se apaga.
Assim, quando errar novamente, como sempre errei e o futuro é inevitável, vou me furtar de agir. Diluindo o Erro em vários Acertos

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Te amo no Tempo

Se um dia pensei que te amava, errei gravemente. Nunca te amei antes! Te amo agora! Te amei sempre Hoje. Ontem fui leviano em achar que todo amor era Ontem. Hoje que te quero mais que nunca. E Amanhã, hoje vai parecer leviandade de sentimento. Sei que vou viver pra sempre contigo, porque não és ninguém mais que eu todo. E caso longe de ti um instante definitivo apenas, acabo.

Suportado

Anseio encontrar um tempo em que haja tempo. Estou a caminhar para o fim óbvio e por isso seguro. Indesejado, mas suportado a cada novo plano. O que me espanta é ter que me despedir. Talvez ir como por birra seja uma resposta. 'a morte é a soluçao de tudo!' clichê continuamente repetido. Mas talvez nada disso tenha soluçao, e a morte verdadeiramente nao tenha sentido. Posto, repito, que nao ha nada para resolver. O problema é, por definiçao, sutil. As soluções grosseiras. Porque foste tão longe? Porque és tão imbecil? Porque que tanta beleza reflete o tão pouco que há. Talvez beleza seja realmente pouco para tudo, dai explica-se porque que tudo é bonito. E em pouca coisa há algo. Tenho esperança de um dia encontrar algo em alguém. Algo que me responda sempre o que quiser ouvir, e nunca me apresse, apresente formas fáceis, caminhos rasteiros. Noite perfeitas de sono limpo.

Sono

Estou a espera de dormir um sono que nao vem. Seria falso dormir sem sono, ou verdadeiro sono de sono carece? Sujeito obliquo de sono dorme, de gozo goza, de tristeza chora, de tédio morre. Menos morte em mais vida, vida de mais para quem ja vivo morre. Vivo condenado a uma morte com um grande intervalo de tédio. Que acaba sempre numa pouco entediante morte.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Pra ti

Meu coração vagabundo quer guardar o mundo em mim!

E depois disso, sentar e rir do teu lado, e voltar de longe por um caminho escuro;

Cada vez mais perto do claro não te poder.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Sobre o passado instantâneo que me foi dado


“Olhar no espelho é ver o passado!” Tudo é passado. Tudo já passou. Mas nem tudo vai passar.


Quarta dimensão física, definidora da impossibilidade da existência de dois corpos no mesmo lugar, o tempo me foi apresentado como passado. Se não vejamos, não sintamos. Nada é mais verdadeiro.


“Que não sou ninguém de ir, em conversa de esquecer, a tristeza de um amor que passou!” Mas já passou. Tudo já passou. Mesmo a pressão das teclas, respondida pelo estimo visual das letras é passado. Quando me beijaste passou. O beijo foi antes. Milésimos infinitesimais de tempo se passaram. Desconfigurando o teu beijo, desconfigurando o meu futuro, desconfigurando o tal catastrófico bater da asa da borboleta por cima de um mar qualquer. Mesmo o gerúndio é mentiroso.


Quando me aproximei, quando bateu indeciso pela ultima vez o coração, passei a mão na tua nuca. Senti mais magra do que presumia. Aproximei-me de ti. Lábios preparados, olhos abertos para a certeza do encontro preciso. Quando fechei os olhos já te beijava, bem antes do encontro dos lábios. Já te beijei antes de sentir. Quando o tato megalomaníaco dos lábios foi sentido, vários centímetros de neurônios já haviam sido percorridos pela tua saliva, e apontaram o retrato preciso do que aconteceu. O presente do teu beijo foi impreciso. O presente é o passado instantâneo. E no futuro te amava, só lá há presente, só nele buscava o teu presente. Como se o perturbado tempo, que me afasta da união atômica de mim e ti, debocha-se de nunca poder ser no presente do indicativo. Tu serás, eu serei. Eu fui, tu foste. O presente cabe ai. Depois daquilo nunca mais te desejarei, já tive. Quando bateu feliz o coração, o apogeu chegará atrasado de presenciar o amor presente.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Frio, Mulher e Poeta

E o frio se fez gente. Como gente, Frio. Pensem nele, figurem-no. Velho, triste, barbudo e torto. Acostumado a fazer dos ossos desespero, e dos músculos mais rígidos real massa vibrante, que nem a vontade mais tesa paralisa.

Mas não. Conheci hoje, num repouso de um hospital, coberto por roupas pouco confortáveis. Veio consulta-se em sonho, havia uma dúvida. Por segundos achei que tratava-se do Amor, e pra ele abri o peito cansado de esperar. Mas não era. Conheci-os gêmeos de mesma mãe Saudade. Jovial, realmente bonito, vestido como eu. Jaleco, barba rala, e uma vontade louca de ser Amor, pois saibam que as vontades nos vestem e travestem.

Viajou por vários recintos ultimamente. Tem fina afinidade por jovens belas, tem a capacidade de torná-las mais charmosas e as adora. Tem ódio dos poetas e não os deixa ser feliz. Faz sentir-se pleno ao menor espaço do calor, calor que não é gente, é condição. O Frio veio me perguntar sobre as Jovens belas e poetas.

—Como?

Não sei, são saberei, e faria de tudo por uma letra da resposta. O que falta para as jovens belas? Qual insatisfação, qual pudor, qual desconforto faz levar algo pleno, admirado por mim, pelo meu interlocutor e sei Irmão, honrar-se podre e triste como um poeta?

—Calma frio.

—Calma?! De tudo o que é pleno, de todas as coisas plenas, logo as mais bela se torna, por graça divina em poucos casos, o mais torpe das espécies, o cansado poeta?

—Calma Frio, senta do meu lado, transmite pra mim todo frio, mas poupa ao uma bela poeta.

—Não

E gritou com bafo estupidamente frio, desprezivelmente real. Foi sonho a fora, me deixou frio, e tenho a impressão que não perdoará nesta noite nenhuma mulher linda poeta.

—Volta. Não as assombre. Elas são lindas e isso é tudo. Tudo é beleza, e como eu deveria apenas Amar. Volta Frio, vol.. Bruuummm..

sexta-feira, 18 de março de 2011

Peço

Vem. Um desejo cercado por músculos me compele a te chamar. Meus braços de ossos de algodão pedem teu descanso. Já nem lembro quando, mas meus ossos não suportam. Nunca mais travesseiro.

Não venha. Do longo tempo de espera meu travesseiro, feito osso e braço por descaso teu, não suportaria outra magoa feita carne.

Vem. Porque não se vive até se lembrar, e já me esqueço, e já me esqueceste, e já não me importo ser esquecido.

Não venha. Partirás, ou partirei, e meu braço, mole por ti, confortável para teu desejo, já não será osso, não poderá trair tanto sua real vocação, e se desmantelará em macia saudade.

Venha, venha mesmo. Mas só peço que me minta nunca ir, e quando fores, porque a vida é real, não anuncie.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Infinitamente Próximo

E tudo tornado real no instante. Fim claro e palpável. Capitado por lentes biológicas, analisado por processador pulsátil, o fim deve existir além da capacidade animal de perceber.

Tudo terá fim logo, tudo o que começou acabará brevemente, e nem nisso há alívio. A dor em presumir o inevitável, a vivacidade sensorial da fábula contra a realidade magra e vesga.

Em verdade, vos pergunto: Quem de vós já sentiu de verdade. Quem de vós alegrou-se sem pudor? Quem de vós chorou sem nenhuma alegria?

Quem?

Em verdade, e em verdade vos digo. Ninguém.

Quando tudo estiver dependendo do infinitamente próximo, quando tudo depender não mais de tempo, mais de sucessão, onde inevitalmenteinexoravelmenteindubitavelmente tudo depender do próximo acontecimento, depender da piedade do Maestro da Orquestra, perceberão que

FIM

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Instantâneo "Delito de Paixão"

Parece bolero,

Te quero, te quero

Paro.

De um canto, limpador de vidro oferece seus serviços

Nossos versos são banais

Limpa

Limpa

No nosso retrato

Pareço tão linda

Te ligo ofegante

E digo confissões no gravador

Sinal verde

Buzina insensível ao pagamento em moedas

O vidro baixa

Mas como eu espero

Teus beijos nunca mais

-- Obrigado doutor, desculpa qualquer coisa

--Deus te abençoe

Teus beijos nunca mais

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Discurso nas Bodas

Agradeço a todos, saibam que a presença de vocês é deferência feita antes a mim. Mas mudemos de assunto.

Descendo de longa linhagem, assim como qualquer um. Viemos todos de um Adão, apaixonado por certa Eva, clichê, porque como disse um poeta, canções de amor se parecem porque não existe outro amor. Somos todos gerados por Amor, ao menos, pelo Amor. Comigo não foi diferente, mas especial.

Meu Adão foi criado por dois mundos. Conheceu ser amado cedo. Meu Adão quando ainda era Adãozinho, tinha medo de monstro embaixo da cama. Meu avô deitou-se com adãozinho debaixo da cama, e mostrou que debaixo de camas não existem monstros. Daí meu Adão cresceu. Descobriu, como poucos outros, que embaixo de camas não existem monstros. E sem medo deles lutou, e sem medos deles sofreu e sem medo deles vieram cicatrizes. Mas sem medo também venceu, sem medo conheceu minha Eva, que já entra na história, e me ganhou. E meu Irmão. E minha Irmãzinha.

Tenho consciência de ser presente, e na condição de, busco ter valor e superar expectativas. Ser presente é definitivamente difícil, mas apaixonante. E sou presente apaixonado.

Minha Eva é fruto de um Amor gigante. Os que conheceram, testemunharam esse Amor, o tem como o maior. Bem representado por uma breve história. Quando idosos, minha avô lavava a louça, meu avô trouxe o prato, que acabara de comer e disse:

- Faltou sal.

Minha avó ficou calada e, pouco depois falou:

-Então manda tua mãe fazer.

No tempo certo, meu avô responde, já longe:

-Manda a tua

Mas meu avô ouvia pouco, e já ia longe, e foi dito baixo, como poderia responder?

-Mas Dedi, tu não era surdo?

- E eu lá preciso ouvir para te conhecer?

Desconfio se alguém aqui conhece definição melhor, mais precisa de amor. Não é preciso ouvir para conhecer.

Desses dois grandes amores nasceram meus genitores, nada mais justo que por eles tenha amor incondicional.

Tenho comigo a lembrança do meu avô paterno como o velhinho que trouxe um monte de doce quando estava com hepatite, e que ouvia e pedia para repetir meus arranjos vocais no clássico sertanejo “pense em mim”. Ficava cantando no meio do fusca quando iam me buscar no colégio, e cantava para meu avô, me lembro disso. E me orgulho disso. “pense em mim, chore por mim, liga pra mim, não não liga pra ele”

Dá minha avô materna, que não conheci tenho a imagem do bom humor encarnado, e especialmente, feito Mulher.

Meu Adão é sério em coisas sérias. Tem sermões mais doídos que surras, e conhecimento muitas vezes confundido, por mim, com adivinhação, dado a precisão do acerto com base em fatos totalmente irrelevantes. Mas é bem humorado, e se reclama de ter de morrer como intransigente, com fama de brigão. Por isso saibam, ele não é brigam. Já mamãe...

Minha Eva é mulher. Linda. Um poço de compreensão pra mim. Ela quem abre a porta de madrugada quando volto dos plantões, e chora comigo a tragédia dos outros. Quem primeiro me recebeu nos braços no mundo, quem primeiro me abraçou no mundo, e provavelmente o melhor abraço que terei até o dia de morrer.

Só tenho a agradecer a esse Deus que me fez linhagem, descendente desse Amor, que me fez diferente do puxa-saco do Abeu, e graças, João Lucas diferente do fratricida do Caim.

Uma vez, de manhã cedo, quando meu avô paterno estava doente, meu pai me perguntou:

-Nainho, o que vou fazer quando papai Machado Morrer?

Não tinha, com 12 anos, a resposta. Mas tenho, hoje, com 23 anos.

-Papai, não sei, não sei como se pode abrir mão de ser tão amado.

Feliz bodas meus pais.

Vida longa, amo-lhes

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Minha Alma

Pensei em guardar minha alma. Ela esta a muito comigo, e nunca tive este zelo.

Colocarei, divididamente, nos espaços que deixo de preencher em substância. Lugar que o mais concreto dos concretos, muito menos concreto que se supõe, deixa de preencher. Espaços teóricos entre partículas ínfimas. Ali minha alma repousaria, dividida em mim. Mas ela me sussurra que não se parte. Quer ser toda.

Penso, e ao pensar, penso que com a cabeça penso. E na cabeça vou colocar. Ficará refrescado pelos meus pensamentos, pelas imagens que me passam. Lá poderá ser inteira, vital comigo. Ficará acompanhada pelo melhor que há em mim. Mas a minha exigente alma ficará espremida, constantemente atrapalhada pelos meus tortos pensamentos, falsos julgamentos. Ela me diz que além de inteira quer ser feliz.

Fui então visitar meu coração. Órgão animado de beleza inconteste. Minha alma ali ficará animada pelos sobressaltos, sustos, emoções várias. Ficaria bem perto do meu calor, bem perto da bomba, que independe de mim pra ser. Talvez a única parte de mim com personalidade própria. Mas minha alma, exigente alma, quer além de felicidade, totalidade, quer ser calma. Meu coração com sobressaltos, batidas decididas e zoadentas, batidas às vezes sem rumo, às vezes com alvo claro, não lhe daria descanso. Precisa de calmo lugar para tomar fôlego de mim.

Não sei mais alma, agora que me expus ao máximo, não encontras lugar calmo, feliz e grande o suficiente para ti. Talvez em mim não devas descansar, porque não sais de mim e descansa noutro lugar? Descansa além de mim cansada e chata alma!

E assim expulsa foi morar num lugar meu, impossibilitada de mim parti, mas que se comunica pra fora. Foi morar nos meus olhos. Lá tem calma, por ser órgão pouco afeito a desassossegos grandes. Lá ela é toda, porque migra à vontade entre eles, e descobriu que ser dois é meio mais sincero de ser um. Lá ela é feliz, porque descobriu que os olhos não são janelas, mas espelhos de almas que também expulsas, moram. Lá, nos outros olhos de exílio, moram almas que se refletem nos meus. Lá, onde minha alma esta agora a procura de se refletir em olhos preenchidos por uma alma que, reciprocamente, se reflita nos meus. Assim ficaram, as duas almas, por infinito tempo, a se refletir nos encontros do olhares. É das almas o narcisismo.