segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Instantâneo "Delito de Paixão"

Parece bolero,

Te quero, te quero

Paro.

De um canto, limpador de vidro oferece seus serviços

Nossos versos são banais

Limpa

Limpa

No nosso retrato

Pareço tão linda

Te ligo ofegante

E digo confissões no gravador

Sinal verde

Buzina insensível ao pagamento em moedas

O vidro baixa

Mas como eu espero

Teus beijos nunca mais

-- Obrigado doutor, desculpa qualquer coisa

--Deus te abençoe

Teus beijos nunca mais

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Discurso nas Bodas

Agradeço a todos, saibam que a presença de vocês é deferência feita antes a mim. Mas mudemos de assunto.

Descendo de longa linhagem, assim como qualquer um. Viemos todos de um Adão, apaixonado por certa Eva, clichê, porque como disse um poeta, canções de amor se parecem porque não existe outro amor. Somos todos gerados por Amor, ao menos, pelo Amor. Comigo não foi diferente, mas especial.

Meu Adão foi criado por dois mundos. Conheceu ser amado cedo. Meu Adão quando ainda era Adãozinho, tinha medo de monstro embaixo da cama. Meu avô deitou-se com adãozinho debaixo da cama, e mostrou que debaixo de camas não existem monstros. Daí meu Adão cresceu. Descobriu, como poucos outros, que embaixo de camas não existem monstros. E sem medo deles lutou, e sem medos deles sofreu e sem medo deles vieram cicatrizes. Mas sem medo também venceu, sem medo conheceu minha Eva, que já entra na história, e me ganhou. E meu Irmão. E minha Irmãzinha.

Tenho consciência de ser presente, e na condição de, busco ter valor e superar expectativas. Ser presente é definitivamente difícil, mas apaixonante. E sou presente apaixonado.

Minha Eva é fruto de um Amor gigante. Os que conheceram, testemunharam esse Amor, o tem como o maior. Bem representado por uma breve história. Quando idosos, minha avô lavava a louça, meu avô trouxe o prato, que acabara de comer e disse:

- Faltou sal.

Minha avó ficou calada e, pouco depois falou:

-Então manda tua mãe fazer.

No tempo certo, meu avô responde, já longe:

-Manda a tua

Mas meu avô ouvia pouco, e já ia longe, e foi dito baixo, como poderia responder?

-Mas Dedi, tu não era surdo?

- E eu lá preciso ouvir para te conhecer?

Desconfio se alguém aqui conhece definição melhor, mais precisa de amor. Não é preciso ouvir para conhecer.

Desses dois grandes amores nasceram meus genitores, nada mais justo que por eles tenha amor incondicional.

Tenho comigo a lembrança do meu avô paterno como o velhinho que trouxe um monte de doce quando estava com hepatite, e que ouvia e pedia para repetir meus arranjos vocais no clássico sertanejo “pense em mim”. Ficava cantando no meio do fusca quando iam me buscar no colégio, e cantava para meu avô, me lembro disso. E me orgulho disso. “pense em mim, chore por mim, liga pra mim, não não liga pra ele”

Dá minha avô materna, que não conheci tenho a imagem do bom humor encarnado, e especialmente, feito Mulher.

Meu Adão é sério em coisas sérias. Tem sermões mais doídos que surras, e conhecimento muitas vezes confundido, por mim, com adivinhação, dado a precisão do acerto com base em fatos totalmente irrelevantes. Mas é bem humorado, e se reclama de ter de morrer como intransigente, com fama de brigão. Por isso saibam, ele não é brigam. Já mamãe...

Minha Eva é mulher. Linda. Um poço de compreensão pra mim. Ela quem abre a porta de madrugada quando volto dos plantões, e chora comigo a tragédia dos outros. Quem primeiro me recebeu nos braços no mundo, quem primeiro me abraçou no mundo, e provavelmente o melhor abraço que terei até o dia de morrer.

Só tenho a agradecer a esse Deus que me fez linhagem, descendente desse Amor, que me fez diferente do puxa-saco do Abeu, e graças, João Lucas diferente do fratricida do Caim.

Uma vez, de manhã cedo, quando meu avô paterno estava doente, meu pai me perguntou:

-Nainho, o que vou fazer quando papai Machado Morrer?

Não tinha, com 12 anos, a resposta. Mas tenho, hoje, com 23 anos.

-Papai, não sei, não sei como se pode abrir mão de ser tão amado.

Feliz bodas meus pais.

Vida longa, amo-lhes

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Minha Alma

Pensei em guardar minha alma. Ela esta a muito comigo, e nunca tive este zelo.

Colocarei, divididamente, nos espaços que deixo de preencher em substância. Lugar que o mais concreto dos concretos, muito menos concreto que se supõe, deixa de preencher. Espaços teóricos entre partículas ínfimas. Ali minha alma repousaria, dividida em mim. Mas ela me sussurra que não se parte. Quer ser toda.

Penso, e ao pensar, penso que com a cabeça penso. E na cabeça vou colocar. Ficará refrescado pelos meus pensamentos, pelas imagens que me passam. Lá poderá ser inteira, vital comigo. Ficará acompanhada pelo melhor que há em mim. Mas a minha exigente alma ficará espremida, constantemente atrapalhada pelos meus tortos pensamentos, falsos julgamentos. Ela me diz que além de inteira quer ser feliz.

Fui então visitar meu coração. Órgão animado de beleza inconteste. Minha alma ali ficará animada pelos sobressaltos, sustos, emoções várias. Ficaria bem perto do meu calor, bem perto da bomba, que independe de mim pra ser. Talvez a única parte de mim com personalidade própria. Mas minha alma, exigente alma, quer além de felicidade, totalidade, quer ser calma. Meu coração com sobressaltos, batidas decididas e zoadentas, batidas às vezes sem rumo, às vezes com alvo claro, não lhe daria descanso. Precisa de calmo lugar para tomar fôlego de mim.

Não sei mais alma, agora que me expus ao máximo, não encontras lugar calmo, feliz e grande o suficiente para ti. Talvez em mim não devas descansar, porque não sais de mim e descansa noutro lugar? Descansa além de mim cansada e chata alma!

E assim expulsa foi morar num lugar meu, impossibilitada de mim parti, mas que se comunica pra fora. Foi morar nos meus olhos. Lá tem calma, por ser órgão pouco afeito a desassossegos grandes. Lá ela é toda, porque migra à vontade entre eles, e descobriu que ser dois é meio mais sincero de ser um. Lá ela é feliz, porque descobriu que os olhos não são janelas, mas espelhos de almas que também expulsas, moram. Lá, nos outros olhos de exílio, moram almas que se refletem nos meus. Lá, onde minha alma esta agora a procura de se refletir em olhos preenchidos por uma alma que, reciprocamente, se reflita nos meus. Assim ficaram, as duas almas, por infinito tempo, a se refletir nos encontros do olhares. É das almas o narcisismo.

Num guardanapo de aniversário

Meus sentimentos convergem violentamente. Todas as 23 experiências passadas somam, multiplicam-se. Convergem no fundo, onde as esperanças guardo. Serei exatamente o que sou? Sou o quê? Sou amanhã? Sou quem?

Pelo amor de uma piedade plena, respondam. Sou quem?

Começarei amanhã um ano novo. Não acreditava nisto. Para mim os anos começavam com fogos, e ondas, e branco, e espumante,e alegria. Mas fui convencido por doces e gentis argumentos que o ano começa exclusivo. Começa quando o mundo roda com exclusividade pra mim. Quando no tecido do espaço, meu planeta, nesse dia meu, marca mesma posição e ai não há fogos nem branco. Há alegria de recomeçar. Há alegria. Doce argumento, exclusivo argumentador.

Amanhã estarei na 24° experiência de um todo completamente desconhecido. Suponho algo, mas pouco para o que significa viver. E viver é tudo.

Vou andando à custa de felicidade. Sou feliz. Nunca em minha vida fiquei órfão de amor. Este ano não há de ser diferente.

Escrevo esse emaranhado de besteiras em um guardanapo de um bar onde espero os que mais gosto. Gosto por escolha, gosto porque fui escolhido. Prometo, de novo, transmitir o máximo de felicidade, até todos entenderem só a vida tem razão, que e muito melhor ser alegre que ser triste.

Minha mente é forte, mas muito mais forte é meu coração

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Olhos

Curso o Oitavo período nesta data, naquela, estava no quarto período.

Era dia de Natal, dia 25 de um ano que não vou calcular, entrei na sala de emergência cirúrgica do Hospital e me deparei com uma cena, já naquela data, miseravelmente corriqueira. Um homem, biologicamente definido assim, mas por opção diferente, estava na maca, alvejado no abdome.

Sempre tive espírito intervencionista e logo comecei a examinar: Vias Aéreas Pérvias, Respiração Ofegante (taquipneia), Pulsos fracos, sinais de Hemorragia Severa (Choque), pupilas..., ai a medicina parou!Parou e ainda para!

Ao levantar suas pálpebras para examinar os olhos, identifiquei lentes de contato de cor muito diferente do usual, cor que bem os define como alegres, nesse ou naquele idioma. Ele me olhou e com um grito estridente, pediu para tirar-lhe as lentes de contato. Fiquei desesperadamente sem ação. Um homem magro, alto, vestido em jeans muito desconfortáveis para a genitália, com camisa feminina de alça, escondendo seios, logrados através de hormônios ou silicone de construção, definíveis hoje apenas pelos poucos vermes que resistiram ao tempo da minha história, morria um homem preocupado com seus olhos.

Pensei rapidamente na possibilidade do preço, mas calcei uma luva nova, e enquanto o maqueiro preparava-se para corrida, pouco tempo depois sabidamente inútil, retirei os pares de lentes dos seus olhos. Tinham cor, os olhos, que não lembro ao certo, e devia ignorar no momento, mas fiquei com as lentes nos dedos, nas ponta dos dedos da mão direita, uma no dedo indicador e outra no médio. Coloquei em um vidro de soro, e hoje penso que soro tem gosto de lágrima.

Houve mais pouco tempo de gritos estridentes modificados levemente por Doppler, mas logo o mundo o calou. A mãe veio, pude atentar para o fato dele ser negro, por mãe negra, já que é o sangue, não a melanina, que nos pinta. Entreguei as lentes, os olhos do filho que já não via.