sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Olhos

Curso o Oitavo período nesta data, naquela, estava no quarto período.

Era dia de Natal, dia 25 de um ano que não vou calcular, entrei na sala de emergência cirúrgica do Hospital e me deparei com uma cena, já naquela data, miseravelmente corriqueira. Um homem, biologicamente definido assim, mas por opção diferente, estava na maca, alvejado no abdome.

Sempre tive espírito intervencionista e logo comecei a examinar: Vias Aéreas Pérvias, Respiração Ofegante (taquipneia), Pulsos fracos, sinais de Hemorragia Severa (Choque), pupilas..., ai a medicina parou!Parou e ainda para!

Ao levantar suas pálpebras para examinar os olhos, identifiquei lentes de contato de cor muito diferente do usual, cor que bem os define como alegres, nesse ou naquele idioma. Ele me olhou e com um grito estridente, pediu para tirar-lhe as lentes de contato. Fiquei desesperadamente sem ação. Um homem magro, alto, vestido em jeans muito desconfortáveis para a genitália, com camisa feminina de alça, escondendo seios, logrados através de hormônios ou silicone de construção, definíveis hoje apenas pelos poucos vermes que resistiram ao tempo da minha história, morria um homem preocupado com seus olhos.

Pensei rapidamente na possibilidade do preço, mas calcei uma luva nova, e enquanto o maqueiro preparava-se para corrida, pouco tempo depois sabidamente inútil, retirei os pares de lentes dos seus olhos. Tinham cor, os olhos, que não lembro ao certo, e devia ignorar no momento, mas fiquei com as lentes nos dedos, nas ponta dos dedos da mão direita, uma no dedo indicador e outra no médio. Coloquei em um vidro de soro, e hoje penso que soro tem gosto de lágrima.

Houve mais pouco tempo de gritos estridentes modificados levemente por Doppler, mas logo o mundo o calou. A mãe veio, pude atentar para o fato dele ser negro, por mãe negra, já que é o sangue, não a melanina, que nos pinta. Entreguei as lentes, os olhos do filho que já não via.

2 comentários:

  1. Carlos, os dois textos marcaram minha noite e o modo como passarei a vivenciar a Medicina de hoje em diante. É incrível saber que alguém que tanto admiro pelo conhecimento científico tem toda essa sensibilidade e não será mais outro cirurgião robotizado: tu serás um cirurgião de almas, tu olhas através das almas dos pacientes! Estou emocionada com os dois relatos e espero que tu não fiques tanto tempo sem postar. Obrigada, realmente obrigada por me mostrar os dois textos!

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  2. Imagino que nem acompanhes mais o blog, mas gostaria de dizer que te respeito muito. Médico que nem tu é médico bom!

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